quarta-feira, 25 de julho de 2012

diário digital

Manolo e Maria, os peculiares habitantes de Cousa Vã

Por Sandra Gonçalves
 
 
João Rebocho Pais estreia-se no romance com «O Intrínseco de Manolo» (o titulo original é em minúsculas). Estreia-se? Pois, se esta é uma estreia não sei o que se seguirá. Diz que nunca imaginou escrever uma história para tanta gente. Diz. Mas seria bom que o autor não se ficasse por aqui, porque talento nato é inclementemente simplificador para classificar este escritor. A chancela é da Teorema.
«O Intrínseco de Manolo» vive em Cousa Vã, uma aldeia alentejana que faz fronteira com a espanhola Ciudad del Sol. As suas gentes são simples. Bem, simples não será a palavra mais indicada. São simplórias, mesquinhas, uma força bruta de ignorância, entregues à vulgaridade, com uma vidinha confinada ao seu umbigo. Há falta do que fazer. Os dias cadenciam-se por entre o trabalho no campo e a ida à tasca para um traçado ou umas minis. As mulheres dali servem para o que servem: a lida da casa, as refeições, sexo ocasional e pouco mais.
Mas neste contexto árido, afigura-se um Manolo e uma Maria. Apaixonaram-se ainda novos e foi amor até ao fim. Manolo diferencia-se de todos. É introspectivo. Gosta de deitar-se à sombra de uma azinheira secular, a sua maior confidente, e com ela desabafa sobre tudo. Ela curva-se para o ouvir e abraça-o nos dias em que o sente mais triste. Diz-se na aldeia, onde muito se fala sobre a vida alheia, que Manolo é traído pela mulher, aquela que tanto ama e que acredita cheia de virtude. Manolo é dono de Maria, pertencente a Maria. Questiona-se frequentemente de onde terá vindo um milagre assim. Mas a dúvida instala-se por entre os aldeões porque Maria desaparece às sextas-feiras, sob o pretexto de dar um pulinho à vizinha aldeia espanhola para ver as modas. Mas quando regressa a casa parece que a moda lhe passou ao lado. E assim, Manolo passa a ser alvo de chacota de todos. Chamam-lhe o adornado. Mas esta figura tão peculiar não se importa. Só tem olhos para o seu amor, aquela que deixa a casa sempre a cheirar bem, que lhe faz os pratos favoritos, que nunca se cansa de lhe conceder um agrado. Acresce o facto de a chama entre os dois nunca se ter apagado. Aliás, o narrador deste romance faz questão de realçar que quando as portas do quarto se fecham não há testemunhas para contar o que se passa entre as quatro paredes, mas suspeita-se, a avaliar pelo desejo que sentem um pelo outro, pelo suor que ainda lhes escorre corpo abaixo quando o deixam.
Mas os aldeões, medíocres, preferem expurgar as suas vidas de mentira camuflada, cheias de improbabilidades, e deliciarem-se a fantasiar com as imprudências de Maria, acrescentando pormenores de fazer corar qualquer um. A mesma gente que se vai perdendo por entre escuros caminhos, vencendo a fraqueza do corpo e esquecendo a história de coisas da sua alma. Como o Tonho, que cada vez mais sente a necessidade de sentir e comportar-se como uma fêmea, como a sua mulher Albertina e a sua genitália devoradora, o Arnaldo (dono da tasca) e o seu desconchavo comercial feito de farsas e esconderijos, a Marília nos seus labirintos de descaminho da realidade, o Beto e a sua ambição sem regras nem respeito pelos mandamentos de Deus e ainda Idalina e a sua imundice sem lei nem fim.
***
A todos eles João Rebocho Pais dedica um capítulo, mas o mais surreal e escatológico é o de Idalina, uma mulher que deixa a roupa amontoada pelo chão na casa de banho, que permanece enrolada em lençóis sujos após o pequeno-almoço, depois de banquetear-se com salsichas fritas, queijo e restos de torresmos da véspera. Ali fica, ajeitando-se e roçando-se por entre cuecas e soutiens usados e sujos. Até que ao meio-dia de um sábado lembra-se do compromisso assumido na paróquia, o de ajudar nas festas em honra da padroeira da terra, cozinhando bolos e pastéis, que serão distribuídos pelas mesas de oferendas. O pároco ficara de ir buscar a oferenda pela tarde. Idalina arrasta-se da cama, dirige-se à cozinha imunda, cheia de gordura e nódoas, bicharada, bolor e um desafiar de prazos fora de validade. Sem tempo para a higiene, e com as mesmas mãos sapudas com que se coçara, ao que se junta o pastoso cabelo, começa a amassar, deixando em tudo o rasto do seu sebo. A gorda Idalina lambe tachos e colheres, besunta-se, afocinha e lambe-se receita adentro, numa orgia de sensações que o desconchavo da sujidade desde sempre lhe trouxera. Num repente, Idalina descose-se num peido gigantesco, uma bufa quase imoral, brutal no seu fedor e consistência. Num assomo de alienada descontracção, lembra-se de catalogar a intensidade da descarga, passando a mão roupa adentro, recolhendo-a salpicada de uma viscosidade acastanhada, que sem demora e por inerência acrescenta à receita em curso, a pasta que viria a tornar-se o recheio dos pastelinhos. Inacreditável a composição desta figura.
***
Cousa Vã é uma terra de privadas mentiras e ausentes soluções. Mas Manolo e Maria terão a oportunidade de mostrar, de forma anónima, o quão íntegros são, seguindo os ensinamentos dos mais velhos e daqueles que já foram. Vão tentar trazer de volta a Cousa Vã perdida. Conseguirão eles? Só lendo. Memorável este romance de estreia de João Rebocho Pais.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=583939

sábado, 30 de junho de 2012

e seguem as ...



Desta vez na revista Time Out ( Lisboa ).
Segue a crítica.

Pombal


Em Pombal, na Livraria K de Livro ... assisti a mais uma apresentação de ' O teu rosto será o último '.


Com o João Ricardo Pedro ( autor ) e o Paulo Moreiras ( apresentador e autor de outras obras ).


Noite ***** !

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ida e volta




Após os seus primeiros passos em sua nova vida, em estantes e mesas de cabeceira, umas palavras vão chegando a Manolo e Cousa Vã.
Obrigado pelo vosso feed-back ( O Tonho adorou esta expressão, vá-se lá saber porquê ).



 

Lido. Perdida....o que leio a seguir ?? Fiquei um pouco orfã...parabéns, miúdo. Muito bem esgalhado, muito bem vivido.
Cousa Vã ficou no mapa...não sei seo Guadiana não faça um desvio...um bracinho de rio quente...

Pedro Gonçalo Antão
Amigo, estou quase a acabar...ainda assim gostava de te dizer que estou a gostar muito. Como dizias, temos o mesmo estilo de humor.

Acho a coisa muito bem escrita, com detalhes e pormenores deliciosos e, por vezes, estranhos!!! Para já, parabéns! No final voltamos a falar!
 
Acabado! Surpreendente. Obrigado jan!


Joao Delfim
OBRIGADO....next...


Elsa Bettencourt
Já acabei de ler o Manolo. Comecei depressa.Adiei o fim. E amei.
Obrigada,por todos eles. Cada personagem é tão Intrinsecamente completa que espero que venhas a dedicar-lhes mais páginas. Muitas:)))
Quero mais.


Sara Caldas
Ja "intrinsequei" o Manolo e gostei...muito!!!!


Licínio Nogueira
Acabei hoje de ler o livro e só tenho uma coisa a dizer: obrigado, Jan.
Obrigado por me trazeres doces lembranças da minha infância. Também as minhas raízes remontam a uma pequena aldeia raiana nesse profundo Alentejo. Pequena aldeia, com gente pequena, por o que não ter que fazer além do "amanho do quinchoso" que lhes permitia a subsistência ao invés de uma existência. De gentes com pouca, ou nenhuma instrução, mas com a sabedoria milenar dos homens simples. Recordações das saudosas tabernas onde se perdiam juventudes e definhavam os velhos.
Posto isto, só tenho a acrescentar que fico ansiosamente à espera do próximo.
Já conhecia muitas facetas tuas, mas não de contador de estórias. Parabéns!



Camarada, peço desculpa pela minha não comparência à apresentação do teu livro, mas vivo longe, nas berças, numa pequena terreola do interior e não me foi possível estar aí. Contudo, já terminei o teu romance e queria dar-te os parabéns. Senti muitas afinidades entre o teu Manolo e o meu Bragatela, é curioso. Além disso, gostei muito da forma como terminaste o romance, mas soube a pouco. Queria mais daqueles "malucos" de Cousa Vã. Que doideira... fartei-me de rir com aqueles encontros e desencontros. Um fartote. Parabéns, caro amigo, ainda nos iremos encontrar por aí, na curva de algum caminho. Um abraço,
Paulo Moreiras



Viva!
Acabei esta noite de ler o livro.
Como calculo que nesta fase tenhas muita curiosidade em receber feedback da tua obra, e pela estima que nutro por ti, aqui te deixo a minha modesta opinião enquanto leitor.

Como apreciação global, gostei e diverti-me. Li com singular avidez. Desconheço, no entanto, se cativado pelo interesse do enredo narrado (neste aspecto toda a Parte 1 está sublime e aliciante) ou se apenas mais por mera curiosidade na revelação da TUA intrínseca escrita, por ser algo emergido de ti.
Parabéns e fico à espera do próximo,
Abraço,


Cá estou!
Lido o Manolo, apreendido o seu intrínseco, podia ir simplesmente ali para o lado (e vou) agradecer-te a boa leitura, o tempo bem passado e as emoções experimentadas (sabe muito bem uma emoção para dar sal à vida) mas quem me conhece sabe que raramente me fico por aí e que, num primeiro encontro com os teus leitores, tenho como certo que o simples elogio em público também não te é suficiente.

Não sou crítico literário. Nem sequer leitor frenético e compulsivo. Leio quando me apetece e quando me sinto motivado a isso, seja por autor (o caso deste, a princípio), por assunto, por ter lido uma passagem que me cativou, ou por outra razão qualquer. Não leio muito, mas leio com interesse… enquanto o interesse se mantiver. Acontece-me com alguma frequência deixar livros a meio por achar que deixaram de valer o tempo que lhes dedico. Não foi o caso com “O Intrínseco de Manolo”. Ficas no entanto a saber que não falo como perito, mas como leitor, e até nessa categoria não dos mais assíduos.

Entrei no livro com a curiosidade de, conhecendo os teus cometimentos na adolescência, assim como alguns escritos mais recentes em incursões pelo blogue que abriga os teus desabafos mais recentes, perceber se a fluidez da escrita se aguentaria em ambiente de “corrida de fundo”. E aguenta-se! A escrita é cativante, cheia do humor que te conhecemos e de pormenores descritivos que facilmente atribuímos ao anjinho que nunca foste. Um ou outro exagero nos "berloques" do estilo (que não nos termos) poderá ser facilmente explicado por alguma falta de experiência ou por avidez criativa e não prejudica grandemente a narrativa. O livro lê-se num instante, um pouco por não ser muito grande, um muito por não conseguirmos despegar da leitura. Lê-se tão depressa que fica a sensação de que, depois de a nós apresentados, poderíamos ter sido brindados por mais um pouco da vida dos cousavaneiros, principalmente depois de lhes sabermos os atributos, vontades e devaneios. Já nas duas últimas partes, para além de não ter nada a “objectar”, não vejo mesmo de que modo diferente as poderias ter escrito para as melhorares. Acabas em grande porque de maneira pouco habitual. E bonita. E sentida. Gostei muito. Obrigado.

Miguel Almeida